21 de novembro de 2016

Revolução Digital e Abundância de Trabalho

por Pedro Demo

Mas demora demais… O hiato entre a emergência de computação generalizada e início da economia revolucionária e mudança social deve-se a dois fatores. Uma invenção muito nova não pode transformar a sociedade enquanto não aprender a usá-la efetivamente; como o próprio Gordon nota, o surto de produtividade penetrou até a primeira metade do século passado; as descobertas chave na domesticação da eletricidade foram feitas nos 1870 e 1880, mas só nos 1920 as conquistas se generalizaram. Carros demoraram para gerar as transformações hoje consolidadas, com ruas e estradas asfaltadas, sistemas de transporte, indústrias paralelas etc. Um segundo fator foi a universalização escolar e universidades técnicas, para reengenheirar a sociedade. Assim, computação também experimenta seu período de ajuste, com velocidade crescente, memória mais poderosa, uso pessoal, comunicação móvel… Programadores evoluíram enormemente, tornando-se expertise de ponta hoje (Basu & Fernald, 2007). Computação vai invadindo tudo (Brynjolfsson & McAfee, 2011).

Revoluções tecnológicas geram costumeiramente benefícios junto com os rompimentos que causa; níveis mais altos de produtividade podem levar a melhores salários, entre outras coisas também alargando a expectativa de vida. Encanamento domiciliar ajudou a tornar cidades mais toleráveis, técnicas de linhas de montagem reduziram custos para carros e TVs, tornando-os bens de consumo generalizado; eletrificação aperfeiçoou todo tipo de processos industriais, e trouxe luz elétrica, telefones e música rock. A revolução digital também, a seu modo, á medida que invade tudo na economia e sociedade. A revolução digital é força irresistível porque acarreta muitas coisas aparentemente boas, forçando mudanças avassaladoras, onde o criador se submete à criatura tecnológica. O que parece desapontador, pode virar, talvez mais que no século XIX.

Na fábrica da Volvo (Gothenburg, Suécia) robôs vão tomando conta da paisagem. Na área final da montagem há equipes de trabalhadores, em grupos de três ou quatro, inserindo componente menores em veículos quase prontos e monitorando se tudo chegou bem até aí. Mas voltando para o início da linha, só robôs, combinando poder e delicadeza de modo impressionante, com processo flexível – por exemplo, fazer um carro para a Inglaterra, como volante à direita, não é problema, assim como fazer um carro diferente do outro. O mais novo de tudo está logo aí à frente, num prédio bem menor, onde programadores constroem códigos para o processo de manufatura. Mas, os desempregados estão inquietos; em 2013, uma onda de protestos irrompeu na juventude desempregada, mas a alternativa de colocar mais gente na produção não tem futuro nenhum – seria um atraso na produtividade (The March…, 2015. A Blazing…, 2013). Os benefícios da mudança tecnológica e econômica vão massivamente para os mais ricos, deixando a sociedade para trás. Excesso de mão de obra torna-se crônico. A era do emprego em massa é apenas saudade (A:P778. Dabla-Norris et alii, 2015. Raff & Summers, 1987). Utilização de trabalhadores desqualificados fica quase impossível, já que o manejo digital exige expertise cada vez mais elevada (Meyer, 1981. Hall & Krueger, 2015. Autor, 2013. Frey Osborne, 2013).

Educação apresenta-se, então, como resposta à mudança, mas tem limitações. Ao mesmo tempo que cumpre o papel da qualificação cada vez mais sofisticada (digitalmente), também vai afunilando as chances, em todo o caso destituindo os não qualificados. Agora a força não é mais física, é intelectual. Elevar a qualificação sempre impactou a produtividade. No entanto, agora isso não é rota única humana, entrando em cena robôs que podem ser, facilmente, “melhores”, pelo menos em atividades específicas (Abramovitz & David, 1995). Contando cada vez mais com talento sofisticado – que não se generaliza na população – a qualificação pode ter impacto hierárquico crescente, afunilando as chances. Uma economia altamente produtiva para todos torna-se sonho ou pesadelo. Grande parte dos concluintes da faculdade atinge empregos que sequer permitem pagar as dívidas da bolsa… (Katz & Margo, 2014. James, 2012. Autor, 2014. Lindley & Machin, 2016). Efeito triste: salários caem em meio à abundância (A:P935). Caindo o mundo na crise financeira de 2008, consumidores perderam interesse em gastar em carros, refeições etc., levando empresas a apertar sua produção e reduzir mão de obra. Sumiram 9 milhões de empregos entre 2008 e 2010. Na Inglaterra, ao contrário, a queda foi menor – cerca de 2%, mesmo com PIB em maior queda. Por que? (The Price…, 2014).

Na Inglaterra salários reais caíram abismalmente, em 8% na recessão; na América, o crescimento se tornou lento incisivamente, mas ficou positivo, entre 2007 e 2013. Na Inglaterra, porque trabalhadores viraram bem mais baratos enquanto as vendas caíam, foi possível ficar com eles, caindo também a produtividade; mas na América a mão de obra não ficou mais barata, levando a grandes demissões. Nada animador para os trabalhadores, mas algum consolo (Bosworth, 2014. Karabarbounis & Neiman, 2013). Parece paradoxal, mas abundância no mercado combina com carência…

Vêm chegando robôs de colarinho branco (A:P1042). A produção americana de petróleo e seus líquidos, com declínio íngreme nos 1980, mais que dobrou desde 2008, para 14 milhões de barris por dia em 2014 (mais que na Arábia Saudita) (http://www.eia.gov/beta/international). O boom gerou euforia no emprego – de 2010 a 2015, emprego na Dakota do Norte subiu 30%, contra 8% para o país como um todo. Em fala de 2012, Obama estimava que extração de petróleo do xisto iria empregar 600 mil até 2020, a maior parte de colarinho branco. Mas é menos que metade do número de atuais caminhoneiros, a maior parte de colarinho azul, cujas tarefas serão logo substituídas por robôs – em 2015, Mercedes Benz já rodou um caminhão autoconduzido (Logan, 2015)… O emprego futuro será determinado pela automação vs abundância de mão de obra. Vem daí um trilema: novas formas de trabalho tendem a satisfazer no máximo a duas das seguintes condições: i) produtividade e salários altos; ii) resistência à automação; iii) potencial para empregar montantes massivos de trabalho (A:P1063). As condições são melhores para robôs. Humanos vão precisar “se virar” (Crooks & Hornby, 2015).

Avent anota a doença do custo, junto com a queda da criação de emprego. A doença do custo virou termo técnico atribuído a Baumol (leva seu nome) – custo deveria corresponder à produtividade, mas esta cresce devagar, e salários mais devagar ainda. “A Doença do Custo de Baumol significa que o custo de muitos setores decisivos numa economia tende a elevar-se no tempo, enquanto a economia como um todo se torna mais rica e mais produtiva. Hospitais precisam garantir médicos e enfermeiras com salários cada vez maiores, mesmo que não se atendam a mais pacientes há uma geração. Professores ainda ensinam ao mesmo número de estudantes do século XIX, sala cheia, mas o salário – mesmo mais baixo que deveria ser – é bem mais alto do que há um século. O setor público de emprego em geral tende a seguir a regra: salários precisam subir para permanecerem competitivos com os do setor privado, a despeito de que a produtividade aí suba muito devagar, se tanto” (A:P1117). A conta não vai fechar!

Pergunta-se se o mundo precisa mesmo de fontes de emprego em massa para todos que gostariam de trabalhar para terem bom emprego? (A:P1194). Esperar-se-ia que a revolução digital trouxesse também esta dádiva: emprego melhor. Trouxe alguma coisa, como nichos interessantes na web, em especial algumas empresas mamutes de ponta, mas isto é para poucos, muito poucos. Nada indica que a expansão física e melhoria da produtividade se traduza em trabalho melhor. A tenência é mais desemprego e salários menores. A esponja não funciona bem (Ellison & Fisher, 2014).

Essas contradições tornam-se cada dia mais ostensivas, diferindo nisso bastante de viradas tecnológicas anteriores, onde “chances” para todos eram bem mais evidentes. Na economia do conhecimento digital podemos presenciar tendências controversas, que induzem a fantásticas concentrações de renda, enquanto a população se vê crescentemente como “massa de manobra”. Enquanto se cria abundância num lado, também de mão de obra cada vez mais sofisticada, esta não consegue competir com a automação. A revolução digital pode ser muito “desapontadora”, como sugere Avent. Enquanto nos parece estarmos atingindo picos de uma revolução tanto mais elaborada (do conhecimento), a ambiguidade tecnológica salta aos olhos: nossas criaturas querem nos engolir. Acresce a isto que cada vez menos gente no mercado se aproveita disso, indicando uma exacerbação dos males do mercado liberal.

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  • Pedro Demo
    Pedro Demo

    Pedro Demo é professor aposentado e emérito da Universidade de Brasília, Departamento de Sociologia. Tem doutorado na Alemanha (1971) e pós-doutorado na UCLA/Los Angeles (1999-2000). Tem colaborado com Estados e municípios em programas de formação permanente de professores, dentro da máxima de que o estudante aprende bem com professor que aprende bem. Autor de mais de 90 livros, grande parte sobre sociologia da educação.