27 de novembro de 2020

O desafio da formação docente para o uso da tecnologia na sala de aula: como preparar o professor?

por GEN.N&G

A intensidade com que a tecnologia tem avançado no meio acadêmico gera inúmeros reflexos na atuação docente. O professor precisa estar “antenado” sobre as novidades tecnológicas para poder utilizá-las, conhecer não somente para si, mas, também, saber como usar esses recursos em benefício do processo de ensino e aprendizagem.

Contudo, a realidade no espaço universitário é marcada pela diversidade. Basta observar o ambiente que temos hoje nas universidades para que vejamos as diferenças. É preciso considerar que há professores experientes, que se formaram em outros tempos, mas há também professores iniciantes, sem experiência alguma. Todos com suas características individuais, com formações distintas, lidando com alunos de gerações que nasceram “conectadas” às inovações tecnológicas, imersas em um contexto de total disponibilidade da informação.

Assim sendo, a inserção da tecnologia no processo educacional provoca, naturalmente, uma série de desafios aos docentes no ensino superior. Apesar disso, acredita-se que dificuldades poderiam ser evitadas e problemas amenizados se houvesse uma preparação adequada para o exercício da profissão, o que nem sempre acontece.

Muitas vezes o professor dorme profissional e acorda professor. Ou, apesar de ter tido formação acadêmica, está mais voltado e focado na pesquisa do que no ensino. De qualquer modo, com ou sem preparação, é evidente que a tecnologia já começou a ser usada no âmbito educacional, conforme apontado pela literatura.

Ela tem mostrado seu benefício e diversos aspectos positivos. No entanto, em muitos casos, verifica-se que não está sendo utilizada da forma mais adequada. Diante dessa realidade, deve-se debater sobre o papel dos agentes envolvidos na inserção da tecnologia em sala de aula, especialmente do professor que norteará todo o processo.

Consequentemente, algumas questões surgem: Os professores estão aptos e dispostos a utilizar a tecnologia? Os que já a utilizam estão fazendo de forma adequada? As instituições têm recursos tecnológicos suficientes? As instituições oferecem aos docentes suporte e apoio para que adotem a tecnologia disponível? Como instituições, gestores e docentes podem se preparar para aplicação da tecnologia no ensino?

Inicialmente, ao pensar na integração da TIC em sala de aula, destacam-se dois aspectos principais: a atitude dos professores e a qualificação deles para o uso da tecnologia. Quanto à atitude, deve-se enfatizar que é uma característica individual, pois há pessoas mais avessas ou mais inclinadas para a adoção da tecnologia. Entretanto, entende-se que a atitude poderá ser positiva principalmente se o docente tiver o conhecimento dos benefícios proporcionados pela utilização da TIC. É importante destacar as vantagens aos docentes, uma vez que, ao conhecerem os benefícios da tecnologia, terão maior probabilidade de adotá-la.

Nesse sentido, identifica-se, no âmbito do ensino, que o grau de abertura do professor é um fator essencial para adoção da tecnologia: professores mais receptivos tendem a utilizar as tecnologias mais facilmente, contribuindo com o aprendizado dos alunos. Alguns autores também mencionam a respeito do processo de aceitação dos recursos tecnológicos na educação, que se contrapõem às resistências encontradas por parte dos docentes, confirmando a importância de compreender o contexto cultural do uso das tecnologias de informação, bem como as diferenças individuais dos docentes.

Quando o assunto é qualificação, a complexidade parece ser maior ainda, pois ela não depende somente do professor, envolve diversos elementos. Além do mais, verifica-se que é escasso o conhecimento sobre os atributos necessários para um professor poder inovar em suas aulas com o uso da tecnologia. Considerando a escassez de estudos que poderiam contribuir para a formação e para a eficácia do uso da tecnologia na sala de aula, surgiu no contexto internacional a estrutura conceitual Technological Pedagogical Content Knowledge (TPACK).

Tal estrutura, também conhecida como componentes, evidencia a necessidade dos conhecimentos de conteúdo, pedagógico e tecnológico, e de todas suas possíveis relações, buscando demonstrar algumas das características fundamentais para atuação do docente com a utilização da tecnologia na sala de aula.

O conteúdo, a metodologia (estratégia pedagógica) e as tecnologias devem ter clara relação e coerência com os objetivos pedagógicos e com as caraterísticas do corpo discente, e entre si, como componentes que se interagem e formam o curso. O componente “conteúdo” é o conhecimento que deve ser transferido, compartilhado, adquirido, construído colaborativamente e apropriado pelos alunos na forma mais adequada, permitindo que o processo de ensino e aprendizagem ocorra. Esse componente tem de ser constantemente revisado e atualizado para que possa contribuir de fato com o aprendizado.

O componente “estratégia pedagógica” refere-se às estratégias de ensino que permitem que o conteúdo seja transferido, compartilhado, adquirido, construído e apropriado pelos alunos, garantindo, assim, os resultados do processo de ensino-aprendizagem. Esse componente enfatiza a importância da estratégia pedagógica planejada e efetivamente implementada pelos professores.

O “componente tecnológico” relaciona-se às mais diversas tecnologias, desde o livro até a internet. Assim, a infraestrutura inclui as tecnologias de informação e de comunicação necessárias para a prática das estratégias de ensino e para o acesso ao conteúdo em suas formas e em localizações diversas, bem como a interação entre os participantes do processo de ensino-aprendizagem.

Esses componentes mantêm uma relação de exigência e de restrição entre si. Assim, o conteúdo exige determinadas metodologias de ensino, bem como certas tecnologias para sua discussão em sala da aula e, portanto, para a realização do curso. Ao mesmo tempo, esse conteúdo pode ser restringido pelas metodologias utilizadas e pelas tecnologias aplicadas, se houver incoerência no tratamento dos componentes curriculares.

De forma similar, a metodologia exige específicas tecnologias para poder ser aplicada com sucesso, sob pena de elas restringirem-na. Acredita-se que tal estrutura possa auxiliar o docente a compreender a forma como a tecnologia deve ser adotada no âmbito educacional, concedendo, assim, base para que o professor desenvolva estratégias que
permitam construir o conhecimento com o uso de recursos tecnológicos.

Todavia, ao lidar com a preparação docente para uso da tecnologia, é preciso ressaltar que bons resultados não só são alcançados com uma formação inicial, como também é preciso que essa formação seja contínua. Ainda, essa formação deve considerar os diferentes níveis de iniciação e de experiência dos docentes no que tange ao uso das tecnologias na sala de aula.

Acredita-se que esses cuidados são essenciais para que o professor sinta interesse em se qualificar e se atualizar, adotando a tecnologia de forma efetiva. A formação contínua, inerente à atuação docente, torna-se cada vez mais relevante com a expansão das TICs. Desse modo, tanto a formação quanto a atualização dos docentes requerem a compreensão a respeito da dimensão das tecnologias e demandam, também, a constituição de políticas públicas que contribuam para a democratização de acesso a essas tecnologias.

Nesse cenário, ressalta-se que a aplicação das TICs nas atividades acadêmicas requer investimentos, inclusive na infraestrutura das instituições, dedicação por parte dos docentes e políticas frequentes e sustentáveis que vigorem por longo prazo.

Evidencia-se, ainda, a necessidade de verificar as demandas e o contexto das instituições, pois a formação adequada não será suficiente, se não houver estrutura para praticá-la adequadamente. Diante do exposto, pode-se concluir que exercer a docência em meio a tantas transformações é desafiador.

Afinal, são muitas as exigências e a necessidade de atualização é constante. Acredita-se, porém, que os desafios serão superados à medida que a percepção sobre o uso da tecnologia na sala de aula deixe de ser assustadora e passe a ser atrativa, influenciando positivamente a prática pedagógica do docente e a experiência de aprendizagem do discente.

Para tanto, é preciso que o docente entenda que a tecnologia pode ser utilizada a favor do seu trabalho. Assim, os benefícios não serão somente para o aluno, mas também para o próprio docente.

Mais conteúdo no livro Revolucionando a Docência Universitária

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